De alimentos a armamentos: o que move os Batista na Avibras?

Wesley e Joesley Batista se aproximaram da Avibras no contexto da recuperação judicial

Há muito tempo os irmãos Batista, Joesley e Wesley, acumulam influência através da J&F — o mesmo conglomerado por trás da JBS, maior empresa de processamento de carne do mundo. Agora, por meio da Globe Investimentos, completaram a aquisição de 100% da Avibras, maior indústria bélica do país. A transação ainda depende de autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para ser concluída.

A Globe Investimentos é um veículo de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista — mesma empresa pela qual eles já investiram na Usiminas. A compra foi concretizada em 21 de agosto de 2026, mediante um aporte de aproximadamente R$ 300 milhões, destinado a garantir a continuidade das operações da empresa e a preservação de sua capacidade tecnológica e industrial na produção de mísseis e demais sistemas de defesa para o Exército brasileiro.

A Avibras informou que 100% das ações de sua controladora, a Nova AVB S.A., foram vendidas para a Globe Investimentos. A fabricante dos sistemas militares Astros e do míssil de cruzeiro MTC-300 entrou em recuperação judicial em 2022, após anos de instabilidade financeira. Uma greve histórica durou 1.280 dias antes de chegar a acordo judicial no dia 26 de março. A dívida trabalhista de R$ 230 milhões com 1,4 mil antigos empregados será saldada em até quatro anos — compromisso assumido no âmbito do processo de reestruturação.

O fundo e o financiamento

Como revelou o Estadão, Joesley havia assinado contrato em abril para participar do financiamento da Avibras, coordenado pelo Fundo Brasil Crédito, que arrecadou R$ 300 milhões com investidores privados. O fundo foi responsável pelo plano alternativo de reestruturação, já aprovado pela Justiça e pelos credores. Na época, a negociação já envolvia um termo de opção de compra pelos Batista.

"A transação tem como objetivo dar sustentação à recente retomada das operações da Avibras, preservar sua capacidade tecnológica e industrial e criar as condições necessárias para que a companhia volte a crescer de forma sustentável nos mercados brasileiro e internacional", afirma a Globe.

Quem sai, quem entra

O antigo dono da empresa, João Brasil, que levou a Avibras à bancarrota, ficará de fora da nova Avibras. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, foi informado sobre o negócio e reiterou preocupação com manutenção dos empregos na unidade de Jacareí (SP), garantia de direitos dos trabalhadores e cumprimento do acordo de retomada homologado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. A entidade segue defendendo a estatização da empresa.

Nos últimos anos, movimentos pela aquisição da Avibras por grupos da China e dos Emirados Árabes chegaram a ser reportados. Mas a produção de mísseis e foguetes está sendo retomada graças ao aporte dos Batista.

Um legado técnico sob novas direções

Até os anos 1980/90, a Avibras era respeitada no exterior por sua tecnologia de foguetes e sistemas de lançamento. Hoje, mantém contratos diretos com o Exército brasileiro e preserva know-how estratégico em mísseis e veículos de lançamentos múltiplos.

A Força Terrestre também está desenvolvendo o Míssil Tático Balístico S+100, que deve aproveitar o conhecimento adquirido com o projeto S-80. O míssil deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibras. Trata-se de um projeto novo e considerado de grande potencial de vendas no mercado externo.

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A pergunta que permanece é: por que magnatas já envolvidos em polêmicas corporativas e investigações entram no setor bélico? Para um grupo já presente na alimentação global, logística, energia e serviços financeiros, mais um braço em indústrias de armamentos pode significar diversificação estratégica — ou acesso a um mercado protegido, regulado e com barreiras altas à entrada. Com o complexo cenário geopolítico atual, o recorde de exportações do setor e a alta demanda global por equipamentos militares, o timing da aquisição não é aleatório.

Mas a indústria bélica exige responsabilidade técnica, governança robusta e transparência. Será que os Batista conseguem transformar uma empresa que passou por greves intermináveis e falência em um ativo competitivo nacional e internacionalmente? Apenas o tempo dirá.

 

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