O monumento que nunca evoluiu: por que a urna eletrônica brasileira continua presa ao século XX

A capa da Veja decidiu glorificar a urna eletrônica brasileira como se fosse um monumento intocável à democracia. Mas aqui está o problema: em qualquer democracia saudável, nada escapa ao escrutínio crítico — especialmente o mecanismo que conta os votos que decidem o destino de milhões.

A realidade é dura: as urnas eletrônicas brasileiras continuam operando sem voto impresso auditável pelo eleitor. Isso significa que, ao votar, o cidadão entrega sua escolha a um sistema fechado que ele não pode verificar pessoalmente. Sem papel, não há como fazer uma recontagem física independente. Sem recontagem, a confiança fica dependente exclusivamente da palavra do TSE.

O TSE alega auditorias — abertura de código-fonte, testes públicos, amostragens — mas a questão central permanece: quem garante que o software auditado é exatamente o que roda na eleição? A tecnologia existe há décadas, e países com democracias consolidadas transitaram para sistemas com rastreabilidade física. O Brasil continua preso a uma geração anterior, protegendo-se atrás de "segurança" que não pode ser verificada por quem mais importa: o eleitor comum.

A capa da Veja não é jornalismo. É adoração. E a democracia morre quando seus mecanismos mais importantes ganham aura de santidade.

 
A tecnologia que recusa envelhecer

Toda tecnologia evolui em gerações. O Wi-Fi passou do lento e inseguro 802.11b nos anos 90 para o Wi-Fi 8 atual, com velocidades gigabit, criptografia moderna e eficiência sem comparativo. Os celulares saltaram de tijolos analógicos para smartphones com inteligência artificial. Os computadores migraram de processadores de 166 MHz para chips com bilhões de transistores. Tudo avança.

Menos a urna eletrônica brasileira.

Introduzida em 1996, a urna brasileira nasceu como uma máquina de registro direto eletrônico (DRE) — o eleitor digita, a máquina grava e pronto. Nada é impresso. Nada pode ser conferido fisicamente. Trinta anos se passaram, os processadores foram trocados, as telas ganharam cor, os sistemas foram atualizados — mas a arquitetura fundamental permanece idêntica: primeira geração, sem rastro de papel, sem verificação física possível. O TSE trocou o hardware inúmeras vezes (UE1996, UE2000, UE2002, UE2004, UE2009, UE2010, UE2013, UE2015, UE2020...) mas nenhuma dessas "evoluções" tocou no ponto central: o eleitor continua votando às cegas, sem nenhum comprovante físico de que sua escolha foi registrada corretamente.

Imagine se a indústria de telecomunicações fizesse o mesmo: trocassem a carcaça do celular, atualizassem o software, mas mantivessem o protocolo analógico de 1996. Seria ridículo. Mas quando é a urna eletrônica, o TSE chama isso de "modernização".

Os vizinhos que superaram o Brasil

A ironia é amarga: países latino-americanos menores e com menos recursos que o Brasil já entenderam algo que a Justiça Eleitoral brasileira se recusa a admitir — voto eletrônico sem rastro físico não é democracia, é fé cega.

A Argentina é talvez o exemplo mais revelador. Após acumular mais de vinte reclamações sobre a confiabilidade e a transparência de seu sistema de voto eletrônico, o Congresso argentino aprovou em 2024, por 143 votos a 87, a adoção da Boleta Única de Papel para as eleições de 2025. Ou seja: diante de dúvidas sobre a integridade do voto eletrônico, a Argentina não tratou o questionamento como tabu ou ataque à democracia. Fez o oposto: ouviu as reclamações, avaliou os riscos e decidiu que a auditabilidade física era mais importante que a velocidade eletrônica. Preferiu recuar para o papel a avançar com um sistema que não podia ser verificado. E chamou isso de cuidado com a democracia — não de negacionismo.

O Equador, por sua vez, implementou pilotos de voto eletrônico em que cada máquina emite um comprovante impreso — um certificado físico com código alfanumérico que identifica a urna e o voto registrado. O Conselho Nacional Eleitoral equatoriano garante auditorias antes, durante e depois do processo, e o comprovante impresso serve como respaldo físico verificável, permitindo a comparação entre os dados digitais e os recibos de papel. Um país com fração do orçamento eleitoral brasileiro conseguiu implementar o que o TSE chama de complexo e caro demais.

A Colômbia, embora ainda não tenha implementado voto eletrônico em escala nacional, conduziu em 2024 um estudo de pré-viabilidade que já estabelece como requisito obrigatório a impressão de comprovantes auditáveis caso o sistema seja adotado. A Registraduría Nacional do Estado Civil da Colômbia projetou um modelo híbrido com rastro de papel, verificação biométrica e auditoria obrigatória dos registros físicos após cada votação. Nem começou a usar urnas eletrônicas — e já estipulou que não fará sem rastro de papel. É como se o Brasil tivesse inventado o avião, mas se recusasse a instalar caixa-preta enquanto todos os outros países exigissem a sua antes do primeiro voo.

Não estamos falando de modelos primitivos de papel. Estamos falando de sistemas eletrônicos com rastro físico verificável — a mesma categoria tecnológica da brasileira, mas em uma geração superior. A diferença é que esses países incluem o que todo especialista em segurança eleitoral recomenda: um comprovante que o eleitor pode ver, conferir e que pode ser usado para recontagem independente.

E aqui está o dado mais contundente: Bangladesh, que junto ao Brasil usava urnas DRE sem voto impresso, abandonou as urnas eletrônicas em 2023. Após pressão pública e críticas sobre falta de transparência, a Comissão Eleitoral de Bangladesh anunciou que não usaria as máquinas nas eleições parlamentares de 2024, optando por retornar às cédulas de papel. Em julho de 2025, foi confirmado que as EVMs não seriam usadas em futuras eleições. O país que dividia com o Brasil a honra de usar urnas sem rastro físico percebeu que isso não era modernidade — era risco desnecessário. E saiu dessa situação. O Brasil permaneceu.

De acordo com dados compilados pela agência AFP e pelo próprio TSE, hoje apenas dois países no mundo usam urnas eletrônicas DRE sem voto impresso em escala nacional: Brasil e Butão. Bangladesh já não está mais nessa lista — justamente porque entendeu que votar às cegas não era progresso. Enquanto isso, aproximadamente dezessete países adotam urnas eletrônicas com algum tipo de comprovante impresso ou trilha de papel auditável — incluindo Índia, Filipinas e Coreia do Sul.

Nos Estados Unidos, país com uma das maiores democracias do mundo, praticamente todos os estados votam com cédulas de papel auditáveis. Há auditorias manuais regulares em que se verificam as cédulas contra os totais eletrônicos. Ninguém lá aceitaria uma urna que simplesmente grava e pronto.

O argumento da auditoria que não convence

O TSE insiste que o sistema é auditável. Abre o código-fonte. Realiza testes públicos antes das eleições. Permite votação paralela em amostras. Faz inspeções partidárias.

Mas tudo isso ocorre antes ou depois do momento que importa. Nenhum desses mecanismos garante que o eleitor, no ato de votar, possa confirmar que sua escolha foi registrada corretamente. Nenhuma auditoria de código-fonte revela o que acontece dentro de cada urna em cada seção eleitoral em cada canto do país no dia da eleição. A auditoria por amostragem cobre uma fração minúscula do eleitorado. E a veracidade final depende — sempre — da confiança depositada no próprio sistema que se quer auditar.

É como se um banco dissesse: "Confie em nós. Você não precisa de um comprovante de saque. Nosso código é aberto." Ninguém aceitaria isso de um banco. Por que aceitaríamos isso de quem conta os votos?

 
A tecnologia existe. A vontade não.

A solução é conhecida e testada: o Voto impresso verificável (VVPAT — Voter-Verified Paper Audit Trail). Funciona assim: o eleitor vota na urna eletrônica, a máquina imprime um comprovante atrás de uma tela transparente, o eleitor confere se corresponde à sua escolha e, ao confirmar, o comprovante cai em uma caixa lacrada para recontagem posterior. Simples. Eficiente. Auditável.

Países já provaram que funciona. Especialistas em segurança eleitoral recomendam há décadas. A própria Justiça Eleitoral brasileira já realizou testes do voto impresso em municípios selecionados. E ainda assim, ano após ano, o TSE resiste à adoção definitiva.

O argumento costuma ser custo e complexidade logística. Mas o Brasil constrói estádios para Copas do Mundo, ergue obras bilionárias do PAC e gasta fortunas em campanhas eleitorais. Quando se trata de garantir que cada voto seja fisicamente verificável, de repente a conta não fecha. Curioso.

Quando questionar vira tabu

O problema mais profundo não é técnico. É cultural e político. No Brasil, questionar a urna eletrônica virou equivalente a questionar a própria democracia. Quem levanta dúvidas é rotulado de negacionista, golpista ou ignorante. A capa da Veja é sintomática dessa patologia: transformar um equipamento administrativo em relicário sagrado.

Isso criou um efeito intimidador: brasileiros comuns que ousam questionar tecnicamente o sistema eleitoral muitas vezes enfrentam não apenas o descrédito institucional, mas também riscos de serem investigados por suposta disseminação de fake news. O TSE nega sistematicamente pedidos de acesso a dados brutos de eleições passadas, mantém o código-fonte fechado mesmo após auditorias e exige que a confiança seja depositada em seu próprio relato sobre a segurança das urnas.

Além disso, as auditorias de código-fonte que o TSE permite são extremamente limitadas na prática. A inspeção ocorre exclusivamente em ambiente controlado, dentro das instalações do tribunal em Brasília, sem conexão com a internet e utilizando apenas estações de trabalho pré-configuradas. É proibido o uso de ferramentas de depuração, reverse engineering ou fuzzing — as mesmas ferramentas que pesquisadores de segurança e potenciais atacantes usam para identificar vulnerabilidades reais. Não há permissão para reprodução de material em mídia externa, fotografia ou gravação. Em resumo: a análise é feita sob condições tão restritivas que impedem qualquer teste de invasão significativo.

Democracias maduras não tratam seus sistemas eleitorais como dogmas. Nos Estados Unidos, cada condado audita suas urnas publicamente. Na Alemanha, o Tribunal Constitucional proibiu o voto eletrônico sem rastro de papel em 2009. Na Holanda, abandonaram as urnas DRE após descobrirem vulnerabilidades. Em todos esses lugares, questionar o sistema eleitoral é considerado exercício de cidadania — não crime.

No Brasil, o TSE se posiciona como guardião moral de uma tecnologia que não evoluiu em três décadas e exige devoção em vez de prestação de contas. A capa da Veja apenas reforça esse pacto de reverência silenciosa.

 
Não é defesa da democracia — é manutenção de um sistema de desconfiança

Nenhuma tecnologia fica presa à primeira geração por trinta anos por acidente. Fica assim porque alguém decide que não precisa mudar. E quando o questionamento é sufocado como tabu, o que sobra não é confiança — é submissão.

A capa da Veja não celebra avanço democrático. Celebra estagnação disfarçada de virtude. O Brasil não precisa endeusar sua urna. Precisa — urgentemente — de uma urna que o eleitor possa conferir com os próprios olhos, tocar com as próprias mãos e auditar com os próprios mecanismos.

Até lá, "monumento à democracia" é apenas um monumento à opacidade.

 

O Olhar Oculto manterá vigilância ativa sobre os desenvolvimentos na urna eletrônica brasileira e suas implicações democráticas para cidadãos e instituições.

Acompanhe nossas análises regulares sobre a transparência eleitoral, as restrições impostas pelo TSE e movimentações relevantes no cenário internacional de sistemas de votação.