Foro de São Paulo: o silêncio criminoso

Olavo de Carvalho foi um dos primeiros a denunciar o Foro de São Paulo, fundamentando suas acusações nas atas originais da organização.

Especial investigativo | Política latino-americana

"Conforme afirmei desde o início, e contra todo o exército de achismos e desconversas, o Foro de São Paulo existe e é a coordenação estratégica do movimento comunista na América Latina."
Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 28 de janeiro de 2008

 

Quando o filósofo Olavo de Carvalho começou a denunciar o Foro de São Paulo na década de 1990, era tratado como maluco e teórico da conspiração. Suas colunas em jornais e revistas de grande circulação buscavam alertar sobre o que ele caracterizava como organização criminosa integrada à rede de narcoguerrilheiros da América Latina.

A resposta institucional? Ridicularização. Quem repetia esses alertas era tachado de teórico da conspiração e tutti quanti. O tema permaneceria à margem do debate público por mais de duas décadas.

A fonte das atas: José Carlos Graça Wagner

Um elemento crucial na trajetória das denúncias foi o acesso às atas originais do Foro de São Paulo. O professor e filósofo Olavo de Carvalho foi um dos primeiros a analisar documentos internos da organização, recebidos diretamente do advogado José Carlos Graça Wagner, que se tornou um dos grandes investigadores da organização.

Graça Wagner dedicou anos ao trabalho de coleta, organização e denúncia das atas do Foro, expondo publicamente deliberações, resoluções e compromissos firmados entre partidos políticos e organizações armadas de esquerda. Seu trabalho permitiu que Olavo de Carvalho fundamentasse suas críticas com fonte primária verificável, não meras especulações.

Sem esse acesso documental, muitas das previsões de Olavo poderiam ter sido descartadas como teorias infundadas. Mas as atas provavam exatamente o que o filósofo vinha afirmando: existência confirmada, coordenação continental e articulações entre entidades legais e grupos classificados como terroristas por governos nacionais e internacionais.

As denúncias pioneiras do filósofo

Em abril de 2003, em coluna publicada na Folha de S.Paulo intitulada "Telhados transparentes", Olavo de Carvalho escreveu:

"O sr. presidente da República foi fundador e, por dez anos, líder máximo do Foro de São Paulo, coordenação do movimento comunista no continente, na qual partidos legais de esquerda se articulam numa estratégia comum com organizações terroristas e criminosas como as FARC e o MIR chileno."

Seu alerta continha previsões precisas sobre a natureza da organização que apenas anos depois seriam confirmadas publicamente.

Em setembro de 2005, no artigo "Lula, réu confesso" publicado no Diário do Comércio, Olavo analisou declarações diretas do então presidente:

"O Foro de São Paulo é uma entidade secreta ou pelo menos camuflada (...) Essa entidade se imiscui ativamente na política interna de várias nações latino-americanas, tomando decisões e determinando o rumo dos acontecimentos, à margem de toda fiscalização de governos, parlamentos, justiça e opinião pública."

O texto identificava três pontos centrais: natureza oculta da organização, interferência política transnacional e uso de fachadas como o "Grupo de Amigos da Venezuela" para operar sem supervisão.

Em junho de 2007, no artigo "A Venezuela vive. E o Brasil agoniza", Olavo diferenciava o papel de diferentes atores políticos:

"Chávez representa o aspecto mais superficial, vistoso e grotesco da revolução continental. O cálculo astucioso, preciso, de longo prazo, é a parte da esquerda brasileira, que criou o Foro de São Paulo e maneja com habilidade extraordinária a orquestração do conjunto."

A análise apontava o Foro como elemento estrutural de estratégia continental, não mera articulação circunstancial.

Gênios! Agora descobriram o Foro de São Paulo

A confirmação pública

Agora Lula confirma publicamente que foi um dos fundadores, junto com Fidel Castro. A organização existe há 36 anos. Tem mais de 200 partidos filiados. É documentada em atas, estatutos e registros públicos.

Segundo registro histórico oficial, a primeira reunião ocorreu de 1 a 4 de julho de 1990, no extinto Hotel Danúbio, em São Paulo. Reuniram-se 48 partidos e organizações de 14 países para debater a nova conjuntura internacional após a queda do Muro de Berlim, elaborar estratégias contra o neoliberalismo e o embargo dos EUA a Cuba, e promover a integração política e econômica da região.

DadoInformação verificada
FundaçãoJulho de 1990
LocalSão Paulo, Brasil
IniciativaPartido dos Trabalhadores (PT)
Figura centralLula (convocação e organização)
Convidado especialFidel Castro (sugestão da criação)
Participação inicial48 partidos de 14 países
Entenda o que é o Foro de São Paulo citado por Lula em seu discurso - Tá Explicado
 

A evolução estratégica: Grupo de Puebla

Em julho de 2019, surgiu uma nova iniciativa associada à mesma rede política: o Grupo de Puebla, fundado no México com ex-presidentes, líderes políticos e acadêmicos de esquerda da região. Observadores apontam a organização como sucessora ou evolução estratégica do Foro de São Paulo, mantendo continuidade ideológica sob nova denominação.

Essa movimentação revela um padrão recorrente: enquanto o Foro de São Paulo permanece ativo, o surgimento de estruturas paralelas sugere capacidade de adaptação e camuflagem institucional — características que fortalecem a tese de ocultação estratégica denunciada por Olavo de Carvalho.

A interferência continental

E o pior: o Foro de São Paulo interferiu decisivamente na política latino-americana. Entre 1999 e 2009, onze presidentes eleitos pertenciam a partidos ligados à organização. A chamada "Onda Rosa" não foi acaso — foi coordenação continental:

PaísPresidenteAnoPartido vinculado ao Foro
VenezuelaHugo Chávez1999PSUV
BrasilLula2002PT
ArgentinaNéstor Kirchner2003FP
UruguaiTabaré Vázquez2004FA
PanamáMartín Torrijos2004PRD
BolíviaEvo Morales2005MAS
ChileMichelle Bachelet2006PS
EquadorRafael Correa2006PAIS
NicaráguaDaniel Ortega2006FSLN
HondurasManuel Zelaya2006PL
ParaguaiFernando Lugo2008Concertación
El SalvadorMauricio Funes2009FMLN

A "Onda Rosa" predominaria na América Latina até meados da década de 2010, impulsionada pelo desgaste dos partidos de direita e pelos efeitos nocivos das políticas neoliberais, segundo análise de pesquisadores da área.

A grande pergunta

Então a pergunta crítica é:

Se Olavo estava certo sobre a existência do foro, onde estavam as redações? Por que o tema foi sistematicamente suprimido dos debates até 2002? Essa ausência foi incompetência jornalística ou ocultação proposital para não atrapalhar os planos da organização criminosa — aquela mesma que reúne partidos políticos, grupos armados vinculados ao narcotráfico e coordena mudanças de governo em toda a América Latina?

Em janeiro de 2008, no artigo "Digitais do Foro de São Paulo", Olavo sintetizou a dimensão da omissão midiática:

"Jamais, na história da mídia mundial, tantos traíram ao mesmo tempo sua missão de investigar e informar."

O filósofo afirmava que documentos oficiais confirmavam ligações entre partidos legais e organizações criminosas:

"As declarações de solidariedade mútua firmadas no Foro de São Paulo entre partidos legais e organizações criminosas não ficaram no papel, mas traduziram-se em ações políticas em que as entidades legais eram instantaneamente mobilizadas para proteger e libertar os agentes das FARC e do MIR presos pelas autoridades locais."

Enquanto isso, o Foro reuniu líderes regionais, articulou candidaturas, coordenou estratégias continentais. Eventos incluíram exposição pública de símbolos de organizações guerrilheiras e promessas declaradas de apoio financeiro a campanhas políticas. A ligação com narcoguerrilheiros colombianos foi amplamente discutida por críticos, embora sempre descartada por aliados do grupo.

O preço do silêncio

O silêncio durou duas décadas inteiras. Quando finalmente virou notícia, era para atacar quem alertou — não quem organizou.

Em 2018, quando o tema voltou à tona com força nas eleições presidenciais, candidatos como Jair Bolsonaro incluíram no programa de governo menção ao Foro como responsável, entre outras coisas, por disseminar drogas no Brasil. A organização também foi acusada de ter a intenção de criar a "União da República Socialista Latino-Americana" (URSAL).

A ironia final: chamavam de conspiração quem lia as atas públicas. E hoje a conspiração é negar que havia algo para investigar.

Mensagem do Presidente Lula ao XXI Encontro do FSP

Declarações recentes

Em vídeo publicado recentemente, Lula reconhece:

"O Foro de São Paulo foi constituído lá em 1990 a partir de um convite do PT a legendas da América Latina e do Caribe para debater a conjuntura internacional."

 
O Foro de São Paulo foi criado para apoiar eleições na América Latina, diz Lula.
 

A declaração marca o reconhecimento público de um fato que Olavo de Carvalho vinha alertando há quase trinta anos — enquanto era sistematicamente ridicularizado por setores intelectuais e jornalísticos.

Olavo de Carvalho foi um homem extremamente corajoso. Em um cenário onde a grande imprensa brasileira optava pelo silêncio ou pela ridicularização, ele escolheu ler as atas, citar os documentos e enfrentar o ridículo institucional para alertar sobre o que estava acontecendo.

Foi perseguido. Taxado de louco, fanático, teórico da conspiração. Sujeito a processos, exclusão dos círculos intelectuais, campanhas de descredibilização. Mas em nenhum momento se acovardou. Seguiu escrevendo, falando, expondo documentos, mantendo sua linha de denúncia mesmo quando isolado.

Foi um bravo combatente no meio de tantos jornalistas covardes, submissos da mídia prostituída brasileira. Enquanto redações inteiras optavam por ignorar a existência do Foro de São Paulo por duas décadas, Olavo permanecia na trincheira, lendo documentos que seus pares preferiam fingir que não existiam.

A diferença entre coragem e covardia ficou clara com o tempo. Quem riu das denúncias acabou calado. Quem denunciou com provas documentais foi validado por documentos que ninguém quis buscar antes.

Olavo pagou o preço de quem decide ver o mundo como ele é, e não como deveria ser. Essa foi a verdadeira traição que cometeu: traiu a conivência.

 

O Olhar Oculto manterá vigilância ativa sobre os desenvolvimentos do Foro de São Paulo e suas implicações estratégicas para o Brasil e para a América Latina, honrando a memória do professor Olavo de Carvalho.

Acompanhe nossas análises regulares sobre desdobramentos políticos, documentos históricos e movimentações relevantes no cenário político latino-americano.