Documentos desclassificados expõem esquema chavista de fraude eleitoral e suspeitas de interferência chinesa nos EUA

Em pronunciamento em julho de 2026, Donald Trump alegou que a China realizou o "maior comprometimento de dados eleitorais da história", acessando 220 milhões de registros de eleitores dos EUA desde 2020.

Documentos desclassificados indicam tentativas de influência estrangeira, embora agências de inteligência americanas afirmem não ter encontrado evidências de que resultados eleitorais tenham sido efetivamente manipulados. No entanto, alguns acreditam que essas agências poderiam estar omitindo evidências por questões estratégicas, evitando reconhecer publicamente a gravidade do problema.

Na América do Sul, documentos da CIA desclassificados revelaram que o regime chavista venezuelano dispunha de um sistema capaz de alterar até 1,5 milhão de votos desde 2012. O esquema envolvia o CNE (Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela), o SEBIN (serviço de inteligência), o DGCIM (diretoria de inteligência militar) — e a Smartmatic, empresa de tecnologia eleitoral. A própria Smartmatic acusou publicamente o governo venezuelano de manipular dados de participação na eleição de 2017, mas a empresa não é confiável e enfrenta processos judiciais nos EUA por acusações de suborno e fraudes relacionadas a contratos nas Filipinas e no condado de Los Angeles.

 
Curiosamente, a própria empresa que Donald Trump vincula ao esquema de fraudes na Venezuela também estabeleceu negócios com a Justiça Eleitoral brasileira. O período mais relevante foi entre 2012 e 2014 — ano da campanha presidencial mais disputada dos últimos tempos no Brasil.

Sob a sigla ESF, o acordo envolvia a Smartmatic junto às companhias brasileiras Engetec e Fixti, numa parceria contratada pelo TSE. O projeto incluía a contratação e capacitação de aproximadamente 14 mil profissionais espalhados por todos os 5.568 municípios nacionais. Oficialmente, sua função limitava-se à preparação das urnas, testes operacionais e manutenção — troca de baterias, carregamento de dados e atualizações do software interno — assegurando que tudo funcionasse na data da votação.

Convém destacar: a Smartmatic não produziu nem vendeu urnas eletrônicas para o Brasil — responsabilidade que ficou com outros fornecedores (Unysin/Diebold na ocasião, atualmente Positivo Tecnologia). Segundo o TSE, o envolvimento da empresa restringiu-se à operação prática, com técnicos de formação elementar em informática básica, sem qualquer permissão para mexer no código de votação, elaborado e controlado exclusivamente por funcionários da Justiça Eleitoral.

Novamente no mercado nacional em 2020, a Smartmatic concorreu numa licitação para fornecer urnas em consórcio, contudo saiu perdendo para a opção mais econômica da Positivo. Desde aquela época, nenhuma parceria permanece ativa entre ambas as partes.

O pleito de 2014 marcou a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves com a menor diferença em eleições presidenciais brasileiras pós-redemocratização — 51,64% contra 48,36%, separados por 3,5 milhões de sufrágios. A proximidade dos números motivou o PSDB a solicitar uma perícia técnica nas urnas, argumentando que o sistema tinha partes "impossíveis de auditar". O exame não revelou sinal algum de irregularidades, e líderes tucanos — até mesmo o vice na chapa adversária — assumiram abertamente a derrota e desmentiram eventuais suspeitas de fraude.

Dalmo Accorsini, há mais de uma década, já apontava problemas com a Smartmatic, participando inclusive de transmissões online em hangouts com o professor Olavo de Carvalho.

Com os papéis da CIA em mãos, surge o questionamento difícil: se a companhia tinha recursos confirmados para modificar 1,5 milhão de votos noutro país, quanto desse potencial permaneceu, ainda que apenas na rotina de cuidados das máquinas, dentro do aparato eleitoral brasileiro durante 2014? Essas descobertas colocam em pauta a proteção dos sistemas de votação e o nível de abertura necessário nas urnas eletrônicas.

Independentemente dos resultados das auditorias oficiais, as conexões da Smartmatic com regimes acusados de manipulação eleitoral — somadas aos processos judiciais que a empresa enfrenta no exterior — não podem ser ignoradas sem deixar lacunas no debate público. Quando uma corporação tem sua reputação comprometida em múltiplas jurisdições por alegações de corrupção e irregularidades técnicas, sua participação em sistemas sensíveis como urnas eletrônicas exige escrutínio extraordinário, não mera aceitação burocrática.

A justificativa do TSE sobre o caráter "estritamente operacional" do contrato com a Smartmatic, embora repetida consistentemente, não elimina completamente a inquietude legítima sobre o acesso de terceiros à infraestrutura eleitoral brasileira. Se técnicos externos puderam entrar em 5.568 municípios, realizar manutenção e atualizações de software embarcado, a barreira entre "operacional" e "programático" torna-se, na prática, mais tênue do que se admite publicamente.

A auditoria solicitada pelo PSDB em 2014, embora tenha descartado indícios formais de fraude, também não conseguiu provar o contrário com absoluta certeza — justamente porque parte do sistema foi descrito como "inauditável" pelos próprios questionadores. Essa ambiguidade perigosa permite interpretações contraditórias: tanto pode significar que tudo estava em ordem quanto que o próprio processo de verificação apresentava limitações estruturais.

O reconhecimento tardio por parte da cúpula tucana de que não havia provas concretas de fraude não desfaz a memória das suspeitas levantadas durante o pleito, nem apaga o histórico problemático da Smartmatic em outros países. Desconfiança eleitoral não se mede apenas por auditorias formais; ela se acumula quando instituições políticas concordam com resultados que já haviam contestado publicamente.

Cabe questionar: qual o nível de transparência aceitável quando empresas com antecedentes questionáveis participam de processos decisórios democráticos? Até que ponto a soberania eleitoral pode ser garantida quando terceirizados internacionais têm acesso a componentes críticos do sistema? Que mecanismos existem para verificar, independentemente, o que ocorre entre a manutenção declarada e a contagem real de votos?

Somente através de maior abertura nos detalhes técnicos dos contratos, auditorias multilaterais com observação internacional independente, e acesso público a logs de sistema verificáveis será possível restabelecer confiança plena no processo. Enquanto essas medidas não forem implementadas, o ceticismo sobre a integridade das urnas eletrônicas permanecerá como questão legítima — não por preconceito partidário, mas por princípios fundamentais de democracia transparente.